sábado, 29 de abril de 2023

O Leopardo João Rodrigues

 O LEOPARDO

 

JOÃO RODRIGUES

 

            O espetáculo estava muito animado, mesmo assim a criançada não se cansava de pedir aos seus pais um pouco de pipoca, pois até Marquinho pediu:

            - Pai, compra pipoca pra mim!

            - Pode ir comprar filho!

            Marquinho deixou o pai e sua mãe com sua irmãzinha e foi comprar pipoca, e, quando ia voltando ao seu lugar resolveu ir ver os animais que estavam nas jaulas...

            - Oi menino, oi menino!

            - Você conversa quem é você?

            - Eu sou um Leopardo.

            - Sim, eu sei que você é um Leopardo, contudo Leopardos não conversam.

            - Mas eu aprendi conversar, e gostaria que alguém me soltasse, sinto muita saudade da floresta, eu gostaria que me soltasse.

            - Mas eu não posso você é necessário ao circo, sem você as crianças não ficarão felizes.

            - Mas eu sinto muita falta da minha mãe, são muitos os Leopardos, outros poderão fazer as crianças felizes, solte-me, por favor!

            - Meu Deus o que devo fazer?

            - Sei o que você deve fazer.

            - O que Leopardo?

            - Soltar-me, eu gosto de você, como é mesmo o seu nome?

            - Marquinho.

            - Sim, Marquinho, eu sou o amigo Biriba, o Leopardo Biriba.

            - Está bem Biriba, eu vou te soltar.

Em instante Marquinho abriu a porta da jaula de Biriba e de repente ele disse:

            - Obrigado Marquinho, eu vou fugir para a floresta, não posso ficar aqui, um dia nos encontraremos na floresta.

            - Vá com Deus Biriba, vá com Deus.

            Biriba sumiu na escuridão e Marquinho voltou comendo a sua pipoca, de modo que quando chegou no local, o pai disse:

            - Você demorou filho, onde estava?

            - Estava vendo o espetáculo lá de trás papai.

            - Não pode demorar quando sair de perto do seu pai.

            Naquele instante um homem anunciava o espetáculo dizendo:

            - Atenção senhores pais, cuidado com os seus filhos, pois o Leopardo Biriba fugiu de sua jaula.

            - Ainda bem que você esta aqui filho.

            - É pai, mas o Leopardo deve ter ido embora.

            - É, deve ter ido, mas é perigoso um Leopardo solto por ai.

            Enquanto isso o dono do circo mandou anunciar que pagaria um grande prêmio pela captura do Leopardo.

            Marquinho ficou preocupado quando percebeu que muitos homens se prontificaram a irem a caça do Biriba.

            Logo a cidade estava repleta de caçadores que se armavam com os seus diversos recursos para prenderem o pobre Leopardo.

            - O senhor também vai caçar o Leopardo papai?

            - Não meu filho, eu não gosto de caçada.

            - Mas quanto ao prêmio papai?

            - Ninguém deva viver de jogo meu filho.

            - Mas prêmio não é jogo, é uma questão de competência, o melhor é quem conquista o prêmio, isso não é jogo.

            - Não filho, isso não entra na minha cabeça.

            - Está bem papai, mas eu gostaria de ir, só por eu ser filho do senhor é que não posso participar!

            - Isso mesmo filho, tal pai tal filho.

            - Mas isso não está certo.

            - Por quê Lina, você acha que não está certo?

            - Sim papai, Marquinho só por ser seu filho, não é necessariamente obrigado ser igual ao senhor.

            - Eu também concordo - argumentou Maria mãe de Marquinho e Lina.

            - Bem, já que é assim, o que querem que eu faça?

            - Vamos concorrer ao prêmio que o dono do circo está pagando pela captura do Biriba.

            - Biriba é muito bonito o nome do Leopardo.

          Marquinho nem deu atenção ao que Lina falou, a sua preocupação era de poder ir com o pai à procura do Leopardo, pois desde aquele momento que ele abriu a porta da jaula para lhe dar a liberdade, teria lhe dado um voto de extrema amizade e agora deixar que os caçadores trouxessem o coitado de volta, isso seria muito difícil para ele e também para o próprio Marquinho. A dor seria incomparável.

            - Mas ir à procura de Leopardo sem cachorros não vai adiantar Marquinho, vamos apenas perder tempo.

            - Não papai, quem sabe a gente o encontra.

            - Como meu filho! Feras são feras, têm a forma de vida diferente.

            - Eu sei papai, mas vamos entrar com o jipe pela estrada velha, é provável que o Biriba tenha seguido a estrada velha, assim a gente poderá encontrá-lo.

            Maria observava alguma coisa em Marquinho, pois seria essa a primeira vez que o menino se manifestava interessado em sair por ai à procura de uma fera.

            - Filho, por que tanto interesse para capturar o animal?

            - Nada em especial mãe.

            - Conte a mamãe filho, o que está acontecendo?

            - Marquinho, o que foi? Conte pra gente - argumentou Lina.

            - Sim filho, pode contar ao papai que farei o que for possível.

            De modo que Marquinho se viu na obrigação de contar a sua ação de bondade grandeza...

            - Meu filho! Então o Leopardo falou com você?

            - Sim papai, ele disse que gostaria de poder estar na floresta com seus irmãos, seus pais, de estar na floresta, e disse também que gostaria de ser meu amigo.

            - Que lindo - argumentou Lina.

            - Lindo mesmo! - exclamou Maria.

            - E então papai, vai me ajudar ou não?

            - O que você quer que o papai faça filho?

            - Prepara o carro papai, Lina, você fica com a mamãe que logo estaremos de volta.      Tim preparou o carro logo e logo...

            - O que vai fazer filho?

            - Vamos seguir pela estrada velha, ele deve ter seguido por ela,

            Enquanto os dois seguiam em meio de tantos caçadores, as duas ficaram torcendo para que o menino e o pai conseguissem encontrar o amigo Biriba.

            - Sinto que ele está muito longe a essas alturas papai.

            - Podemos ir então filho?

            - Sim papai, ele deve estar muito longe.

            E já depois de uns dez quilômetros Marquinho falou:

            - Papai, pára ai que vou dar uma olhada se ele passou por aqui.

            Marquinho desceu do carro e esperou que o som do motor se perdesse na floresta ele falou:

            - Papai, eu vou gritar, pode?

            - Pode filho, acho que nenhum caçador já está a essa altura.

            - Oooo Biribaaaaaaaá.

            Minutos depois o Leopardo bramiu a voz do seu amigo.

            - Ele respondeu papai, que barato, ele respondeu.

            - Vamos filho, ele está bem adiante.

            De maneira que na esperança de encontrar o seu amigo Leopardo, o Leopardo Biriba, Marquinho deixa transparecer em seu olhar a grande satisfação dizendo:

            - Ele responde papai, ele é meu amigo.

            E depois de uns três quilômetros Marquinho  pediu ao seu pai que parasse o carro e tornou a gritar.

            - Oooo Biribaaaaaá.

            Ali perto o seu amigo Leopardo bramiu.

            - Biriba, venha, sou eu, Marquinho, venha meu amigo.

            Ainda na escuridão Biriba chegou até Marquinho que passando a mão em seu pelo falou:

            - Vamos rápido, entre no carro que têm muitos caçadores atrás de você, vou te levar para muito distante.

            Em poucos minutos de viagem o corro encontravam outros carros que procuravam pelo pobre Leopardo.

            - Pra onde devemos ir Marquinho?

            - Vamos atravessar a fronteira do estado papai, e só no pé da serra do salitre é que devemos dar a liberdade a ele.

            - Não acha melhor a gente levar ele pra fazenda filho, assim cuidaremos dele um pouco e depois outro dia o levaremos embora?

            - Não papai, cuidar por cuidar o circo vive cuidando, o que ele precisa mesmo é de realizar o seu sonho.

            O sol do sertão já iluminava o mundo no pé da serra do salitre, o fazendeiro chegou com seu filho e o Leopardo Biriba.

            - Acho que aqui está bom papai, vamos deixar que Biriba ganhe a sua liberdade.

            Marquinho desceu do carro e foi até o Leopardo dizendo:

            - Biriba, aqui já está muito distante, você pode ganhar a floresta e ser livre eternamente, nunca vou me esquecer de você.

            - Obrigado Marquinho, não sei como vou poder retribuir tudo o que fez por mim e agradeço também ao seu pai.

            - Não tem nada que agradecer Biriba, nós estamos no mundo para um servir ao outro.

            - Obrigado senhor, cuide bem do meu amigo Marquinho, faça ele feliz que vou embora, sei que nunca mais terei amigos como vocês.

            Marquinho abraçou Biriba e os dois choraram Tim por sua vez abraçou o filho com a fera e falou:

            - Acho que é hora de ir, alguém pode nos ver aqui.

            De modo que Biriba ganhou a liberdade e foi viver com os seus familiares...

            Marquinho ficou por algum tempo parado olhando o seu amigo até que ele se escondeu à distância...

            - Vamos filho.

            Com os olhos lagrimados Marquinho falou com o pai:

            - Papai me de um abraço!

            Tim abraçou o filho e disse:

            - Tudo bem filho, cada um nasce de uma forma, uns são crianças, outros são Leopardos, outros são leões, outro...

            - Sei papai, por isso é que estamos aqui, porque somos gente, o ser humano, dotado de raciocínio.

            Os dois entraram no carro e seguiram a estrada de volta pra casa.

            - Sabe papai, o senhor não é capaz de imaginar o quanto estou feliz por ter libertado o Biriba.

            - Eu também estou filho.

            - Daqui a pouco o Biriba estará tomando banho nas águas límpidas, não precisa mais enfrentar aquela jaula imunda, passar o dia inteiro debaixo daquela lona quente, não, agora Biriba tem o azul do céu como sua lona.

            - É filho, e a sua jaula será toda a floresta.

            - Isso mesmo papai, ele irá escolher o tronco que ele bem quiser para dormir.

            - Vai filho, vai caçar...

            - Será que vai ser difícil para ele se alimentar papai?

            - Não filho, na floresta existe muitas espécies de animais.

            - Deus fez o mundo com toda perfeição, cada coisa no seu lugar, como é lindo a obra de Deus, heim papai!

            Tim olhando o filho e agradecido por Deus ter lhe confiando um menino tão inteligente respondeu:

            - Sim querido, como você, é uma perfeição divina.

            - Mas não somos papai, a maior perfeição de Deus, nós somos apenas uma coisa, apenas uma imensidão delas que Deus fez.

            Depois de um longo tempo de viagem...

            - Lá está a torre da igreja papai, estamos chegando à velha cidade de Carinhanha.

            - Velha mesmo filho.

            - Quantos anos serão que ela tem papai?

            - Dizem que já passou de quatrocentos anos.

            - E para isso mesmo papai, veja quantos muros velhos, quantas casas velhas...

            Tim chegou a casa e quando entrou encontrou Lina e Maria esperando-os na porta.

            Lina pulou nos braços do pai e disse:

            - Encontrou o Biriba papai?

            - Sim querida, nessas alturas ele já deve estar longe.

            Marquinho abraçou a mãe chorando e disse:

            - Ele se foi mamãe,  foi ser feliz com seus amiguinhos.

            Maria tomou o filho nos braços e disse:

            - Vamos almoçar?

            - Já é quase hora do jantar mamãe.

            - Mas pra nós ainda é almoço.

            - Lina, e na cidade tem algum comentário sobre o Biriba?

            - Tem Marquinho, muitos caçadores voltaram trazendo outras caças.

            - Eta povo perverso, aproveitam a oportunidade para matar os pobres animais indefesos.

            - Não fique assim filho, desde que o mundo e mundo, as pessoas sempre foram assim.

            - É mamãe, mas um dia tudo isso vai acabar.

            - Sim Marquinho, vai acabar mesmo  argumentou Lina.

            - Por que filho? - indagou Tim.

            - O homem papai, vai acabar com tudo.

            - E do jeito que vai é bem provável que acabará com ele próprio.

            - Vocês são ainda muito crianças para estarem preocupados com estas coisas.

            - Não sei por que mamãe, talvez seja por isso que o mundo chegou aonde chegou.

            - Isso mesmo Marquinho, se as mães soubessem educar os seus filhos no passado, não seria um bando de covardes.           

- Notou quando o homem do circo ofereceu o prêmio, quantos saíram em busca do pobre animal  argumentou Marquinho.

            - Sim filho, só por causa do dinheiro.

            - Sei papai, sei que é por causa do dinheiro, mas tem outras formas de ganhar dinheiro, não aprisionando os animais, tirando a liberdade dos coitados indefesos.

            Marquinho falava e comia dizendo:

            - Meu amigo Biriba, Deus que lhe ajude, que viva uma vida feliz.

            Quando terminaram de almoçar Lina falou:

            - Marquinho, vamos ver o filme que vai passar.

            - Qual o filme Lina?

            - Do escritor João Rodrigues.

            - Qual é o titulo?

            - Ainda não sei.

            - Então vamos.

            De modo que todos foram para a sala de televisão e Lina ligou o aparelho que...

            - Bem amiguinhos, esta é uma história muito emocionante com base no livro de João Rodrigues.

            Assim surgiu na tela e Lina acompanhando...

            - Marquinho e o Leopardo.

            - Sua história Marquinho! - falaram todos ao mesmo tempo.

            Marquinho, porém, não viu, pois estava dormindo e sonhando com o seu amigo Biriba lá na liberdade, se escondendo entre a relva, livre das mãos dos humanos...

Fim

O Inocente João Rodrigues

 O INOCENTE

 

JOÃO RODRIGUES

 

                Numa cela fria de uma cadeia onde me prenderam injustamente, encontrei um prisioneiro que a me ver ali com ele naquele pequeno lugar, disse:

            - Olá! Você também é inocente, eu conheço os olhos de um inocente.

            Quando aquele ser horrível falava com a sua boca escondida nas enormes barbas, me fazia imaginar que seria o meu fim.

            - Não tenha medo de mim, eu também sou inocente.

            Voltei a olhar para aquela coisa que com suas enormes unhas coçava o seu corpo impregnado de bichos de cadeia. Até fazia um som inigualável.

            - Eu era pedreiro, sempre gostei da minha profissão. Saía cedo e voltava já lá pra noite adentro. Fui muito feliz. Até que um dia, como tudo tem fim, chegou a minha tristeza, que essa, eu acho que nunca via terminar.

            - E por qual motivo? - indaguei coberto de medo.

            - Não precisa ter medo de mim! -  exclamou o homem horrível dizendo:

            - Eu era casado, tinha a minha mulher e meus dois filhos, uma menina e um menino.

            - E dai?

            - Daí que certo dia faz isso uns doze anos, que para mim parece uma eternidade. É, uma eternidade. Eu cheguei mais cedo na minha casa. E pra minha surpresa encontrei a minha mulher de prosa com um amigo dela na varanda da casa. De maneira que falei com ela. Maria, Maria, não é bom mulher casada ter amigo homem. Eu falei com ela. Contudo ela com aquela voz suave e doce me disse:

            - Que é isso Geraldo! Eu sou e serei sempre sua. Você é o homem da minha vida Geraldo!

            E aquele homem triste e nervoso ao mesmo tempo, coçava o seu corpo com aquelas unhas enormes e continuava a falar:

             - Que é isso Geraldo...

            - E o que aconteceu?

            - Foram cinco longos anos, sempre que eu chegava, ela estava lá na varanda da nossa casa, ali, de papo com o amigo dela. E eles sorriam, sorriam um longo sorriso. Sorriso esse que ela nunca sorriu para mim.

            - E você não fez nada para separar os dois?

            - Voltei um dia bem mais cedo! Quando cheguei, encontrei o portão trancado. Pequei a minha chave e o abri. Cheguei à porta da casa, essa também estava fechada, peguei a minha chave e a abri. Foi que vi as minhas crianças, estavam vendo televisão na sala. Ela não estava. Fui à cozinha, também não a encontrei. Aí quando entrei no nosso quarto, lá estava ela, assim do jeito que a gente nasce. Estava com o amigo dela. Os dois deitados na cama, assim do jeito que a gente nasce.

            - Pelados na cama?

            - Sim, como nasceram! Fiquei olhando pros dois. O homem logo se levantou tremendo com aquela bunda branca. De modo que falei pra ele que pegasse as suas coisas e fosse embora. Pois eu não encontrei nenhuma porta arrombada ali. Alguém abriu pra ele entrar. Assim vi aquele maldito sair carregando as suas coisas na mão e tremendo com aquela bunda branca.

            - E quanto a mulher?

            - Assim que o homem saiu, ela se levantou e veio pro meu lado falando com aqueles lábios corados que eu tanto beijei. Aquele corpo sedutor que tanto amei. E que agora eu sabia que não era verdadeiramente meu. E assim ela me olhou com aqueles lindos olhos pretos e disse:

            - Você me perdoa Geraldo?

            - E você a perdoou?

            - Não sei. Só sei que tive a mão tão certeira que acertei a junta do seu pescoço com a navalha. Não deu tempo nem mesmo dela falar, pois vi a cabeça dela rolando no chão do quarto. E desesperada ela tentava procurar o seu corpo com aqueles lindos olhos pretos esbugalhados.

            De maneira que apanhei a cabeça dela na palma da minha mão e fui lá pro quintal conversando com ela. Só que tive de fechar os olhos dela, pois era grande a minha dor. Eu levava o meu sonho de felicidade na palma da minha mão. Eu até queria chorar. Sei que me assentei do lado da boca de uma cisterna que ela mesma me ajudou cavar quando na época do nosso casamento. Eu cavava e ela tirava a terra. Sei que quando o buraco ia ficando fundo eu colocava a terra num balde e ela puxava com o  sarilho e às vezes até dizia com aquela voz que invadia o meu ser:

             - Pode pôr mais amor!

            - Ah! Como aquilo me alegrava. Eu até olhava pra cima e via a nudez dela que tanto me fazia feliz. De sorte que eu me despedi dela, quero dizer, da cabeça dela, a soltei na cisterna. E até guardo na minha mente o som que fez quando o meu sonho descia na escuridão.

    - Como foi triste ver aquele fim. Voltei lá no quarto e apanhei o corpo dela. Como foi difícil. É por isso que as pessoas falam que mulher sem cabeça é uma maldição. Tive que arrastar o corpo dela como se eu fosse uma fera, arrastei aquele corpo que tanto me alegrou, e o atirei na cisterna, senti que estava sepultando ela e os meus sonhos. Num buraco que ela mesma me ajudou a cavar. Se eu soubesse que era para isso, não o teria feito. Mas já estava feito, não tinha como voltar atrás, fui até a sala e vi as crianças vendo televisão. Olhei nos olhinhos delas e foi que percebi que tinham os olhos pretos da mãe. De modo que me lembrei da Bíblia, árvores mal, fruto mal, tem que ser cortada. Assim eu fiz, cortei os pescocinhos delas e as joguei na maldita cisterna. Voltei pra casa e abri o gás, peguei umas coisinhas e fui saindo, mas por sorte ou azar, me deparei com a mãe dela no portão, a minha sogra, foi ai que vi de onde vinham os olhos pretos. Cortei o pescoço  da velha e a joguei na cisterna. Agora eu já podia ir embora, e fui. Assim que sai no portão, joguei o fogo e ouvi a minha casa explodir. Eu não olhei para trás. Pois a Bíblia diz que Deus mandou que não olhasse para trás ao destruir Sodoma e Gomorra. Eu não olhei. Só vi o brilho dos olhos das pessoas que gritavam:

            - A casa de Geraldo está pegando fogo! A casa de Geraldo...

            - Eles sorriam da minha desgraça...

             - Depois você foi preso?

            - Sim, disseram que sou culpado, mas culpada era ela que foi arrumar amigo homem. Eu sou inocente. Agora eu vou dormir um pouco. Boa noite amigo...

            Este foi o maior pesadelo que tive em toda minha vida.

 

FIM 

O Tronco João Rodrigues

 O TRONCO

 

JOÃO RODRIGUES

 

            Certo dia, um homem de meia idade, resolveu sair da sua casa, indo assim, sem destino. E ele seguia rumo ao nada. Nem sequer quis se despedir da sua esposa e dos seus filhos. Seguiu estrada afora. Até parecia que a floresta sorria de ti. E quando já era tarde, o seu corpo cansado de tanto andar, Ele resolveu assentar-se num velho tronco que estava à beira da estrada. Quando se assentou, o velho tronco falou:

             - Hein! Nem sequer pediu licença!

            Quando o tronco falou, o homem pulou para o alto e assustado exclamou:

             - Tronco não fala!

            No entanto o tronco continuou dizendo:

            - Eu sei que tronco não fala. Porém, eu falo. Estou aqui há quatrocentos anos, e muitos hipócritas como você já passaram por aqui. E quando eu falei com eles, uns caíram duros do meu lado, e outros, porém, devem estar correndo até hoje. Você parece que é forte, pois não caiu e nem correu. Apesar de ser um hipócrita e estar indo embora rumo ao nada, deixando para trás a sua esposa, que por sinal é muito bonita e que você nunca se preocupou com ela. Você nunca agradeceu nem mesmo por um prato de comida que ela te serviu à mesa. E os seus filhos? Nem sequer se despediu deles. Haja vista que vejo alguma coisa boa em você. Por isso, queria te  pedir um grande favor?

             - Que favor?           

            - Gostaria que voltasse para sua casa, e se possível fosse, que me levasse com você. Que me pusesse ali, num jirau debaixo de uma coberta, onde eu pudesse ficar ali sem tomar a chuva e nem o sol, sem sofrer a dor da lepra do cupim e da formiga. Que eu não ficasse à mercê do frio e do calor. E por fim, que eu não sofresse esta dor  infernal da solidão, que venho sofrendo ao longo de quatrocentos anos. Sabe! Eu sei que muitas vezes sinto vontade de que alguma coisa boa pudesse acontecer a mim...

            O homem olhou para o tronco e sem decidir ele parou. Eu agora pergunto a você que está lendo esta história, nesse espaço que lhe darei. Se fosse você? Levaria o tronco?  Voltaria  prá sua  casa carregando  um  tronco?

            ?

            Não sei qual foi a sua resposta, porém, o homem da minha história, cabisbaixo e pensativo, relatou:   

            - Eu te levarei.

            - Obrigado Tim, muito obrigado. Não tenho mãos para bater palmas, não tenho lábios para sorrir como você, Porém, te dou o meu muito obrigado.

            Tim colocou aquele velho tronco nas costas e voltou prá sua casa. E assim que eles seguiam estrada afora, o tronco disse:

  - Sabe Tim, como era bom naquele tempo em que eu era árvore, lembro-me que na primavera a nossa folhagem caía. Deus nos  mandava   um  vento  frio  para  refrescar  os nossos caules.  Como era gostoso Tim... Logo depois, Ele nos mandava uma chuva fina e nós bailávamos e formávamos uma canção. Ha que saudades daquele tempo. Nós, no entanto, dávamos em agradecimento ao Senhor Deus, a floresta cheia de flores. De modo que num dia infeliz, o maldito progresso passou por aqui, foi aí que me tornei neste velho tronco que você está carregando. É Tim. Quantas vezes eu desejei que o fogo me consumisse quando eu via a floresta queimando. Eu me sentia feliz. Só que o quê chegava perto de mim era aquela maldita fumaça preta. Eu sentia até o calor das chamas. No entanto, elas não podiam me consumir por que fiquei a beira deste caminho infernal. Olha Tim, você, por exemplo, é um hipócrita, nunca teve o privilégio de olhar para as pessoas, de agradecer pelo o que elas fizeram por você, tem tantas coisas Tim, que você não fez.

            Naquele momento em que o tronco falava, Tim não gostou. O atirou  no chão e relatou: 

            - Não acha que está conversando muito?  Eu bem quê podia colocar fogo em você,  e depois!  Hem! Depois você se tornaria em cinzas, e aí?          

Aí o tronco disse para o Tim:

            - Tudo bem Tim, vá em frente, ponha fogo em mim, deixa que eu me transforme em cinzas, Só que aí Tim! Ninguém irá saber da nossa história, ninguém irá acreditar em você. Não irá saber que você me conheceu. Ninguém irá saber o que acontecerá a nós dois quando chegarmos a  sua  casa. Vamos Tim, acabe logo comigo. Vamos. Eu sei que você é um fraco, que não tem coragem de fazer isso comigo, por que os hipócritas são fracos Tim. Eles não têm coragem de fazer tal coisa, vamos.

            Tim se assentou ali no chão, bem  perto  do  tronco. Meio triste, se sentindo envergonhado, disse para ele:

            - Sabe cara! Você fala com tanta profundidade, parece me conhecer, e parece que isso é uma coisa até mesmo acontecida bem antes de mim. Talvez tão misteriosa que isso deve ter se dado bem antes mesmo do meu simples nascimento, como isso, bem antes mesmo de eu vir a terra.

            Aí o tronco fez um grande silêncio, depois disse para o Tim:

            - Vamos Tim, ainda quero ver os raios do sol adentrando-se em sua casa quando lá chegarmos. Quero ver o quanto é belo o lugar onde eu irei passar a minha eternidade. Quero saber Tim, antes de tudo, cada detalhe do meu tão desejado lugar. Se for que vamos, vamos.          

Assim, Tim e o Tronco continuaram seguindo estrada afora. Daquele momento em diante, Tim começou a agradecer ao nosso Senhor Deus, por tudo que via ao seu redor. Ali, Tim  agradeceu ao vento, agradeceu pela relva, agradeceu pela própria estrada que ele seguia, pela terra que ele pisava, pelos pássaros que cantavam, por tudo que ele via em sua frente. Até que quando os últimos lindos, brilhantes e incomparáveis raios de sol, pairavam sobre o telhado da casa de Tim. Ele chegou com o Tronco. Naquele momento de grande ou talvez quem sabe, de inigualável emoção. As suas lágrimas cobriam as suas faces. Cobriam também as faces da sua linda esposa e dos seus maravilhosos filhos que vieram recebê-lo no terreiro, e assim a sua linda esposa indagou:

            - O que fizeste o dia todo?

            No momento a resposta de Tim, foi um olhar de gratidão nos olhos dela. E o tronco relatou:

             - Está vendo Tim! Não te disse que ela era linda!

            As lágrimas de Tim, não paravam de descer na sua face, e a sua voz embargada de emoção, não lhe deu a condição de responder ao comentário do tronco.  Que continuou dizendo:

            - Não fique triste Tim, só nós dois conseguimos ouvir um ao outro,  ninguém mais nos ouve.

            Aí Tim chamou os seus filhos e disse-lhes:

            - Lucas, você e Pedro, coloquem este tronco lá naquele jirau na casa da roda.

            Depois da ordem, Tim foi abraçado com a sua linda esposa, lá para a cozinha, antes, porém, de ali chegar, ouviu os seus filhos gritarem:

            - Papai, o tronco quebrou.

            Tim foi para lá, nem sequer tinha chegado à cozinha para comer alguma coisa depois de um dia de talvez, ou um dia de uma lição de moral ou dia de quem sabe, um dia de um acerto de contas ou até mesmo um dia de algo inexplicável. Pois ao chegar lá na casa da roda, viu o tronco caído ali no chão, e partido ao meio. E lá de dentro do seu oco tinha saído um grande tesouro. Tim chorando e ao mesmo tempo sorrindo. Tomando aquele tesouro em suas mãos, aquelas lindas moedas de ouro, aquelas pepitas, aquelas  jóias de diamante. E foi lá pro meio terreiro. Levantou as suas mãos para os céus, e disse:

            - Deus! Muito obrigado Deus! Agora eu sei Deus, eu sei que  tronco não fala, era com você Deus, era com você que eu falava, era com você Deus...

            Tim passou a noite inteira lá no meio do terreiro da sua casa, conversando com as estrelas, e até dizia a elas:

            - Não sei qual é de vocês que é Deus. Porém, eu sei que você está me vendo Deus. Muito obrigado por ter me dado este grande privilégio, este privilégio de ter falado com você...         

De maneira que no dia seguinte, Tim pegou aquele tesouro e com ele comprou todas as terras que existiam por ali. Construiu uma grande casa à margem da estrada, nela Tim fez uma enorme varanda, e com o resto do tronco, fez uma cadeira de balanço, e ali, Tim ficava. Passava o seu tempo sempre ali. Ali naquela grande e confortável cadeira feita com o resto do tronco. De lá dava para o Tim ver as pessoas que passavam pela estrada. E elas  sempre quando passavam ali, gritavam:

             - Tim! tudo bem?

            Tim acenava as  mãos para elas, e  com muita alegria, dizia:

             - Que Deus vos acompanham...

            E por muito tempo Tim ficou ali. Abençoando as pessoas que passavam por aquela estrada. Um dia, no entanto, alguém passou e gritou:

             - Tim, tudo bem? 

            Tim, no entanto não respondeu. Tim estava lá. Lá naquela cadeira feita com o que sobrou do tronco. Tim estava parado, nem sequer mexia mais. Tim estava lá. Sim, estava  como uma grande pedra. Tim estava frio. Por que a vida é assim. Ela tem o seu fim, tem o seu tempo. Como tudo passa. Aquele dia fez passar. E passou o tempo. Passou o tempo de Tim. E o seu tempo? Hem! O seu precioso tempo, quando será? Quando haverá de passar o seu tempo? Eu gostaria que você pensasse sobre isso! 

 

FIM

O Menino de Rua

  O MENINO DE RUA   JOÃO RODRIGUES               Na esquina de rua doze com a avenida vinte e três, alguém chorava...             - Por que ...